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Nossa ignorância. Nosso conhecimento

Publicação:  Regis MRP

O espírito de nossa era é hostil às pessoas que expressam suas opiniões com clareza e se apegam firmemente a elas. É provável que uma pessoa de convicção, por mais inteligente, sincera e humilde que possa ser, seja vista como fanática. Em nossos dias, considera-se realmente brilhante a mente que é ampla e aberta – ampla o suficiente para absorver toda ideia nova que lhe é apresentada e aberta o suficiente para continuar a fazer isso sempre.

Em resposta a isso, é preciso dizer que a fé cristã é, em essência, dogmática, pois declara ser uma fé revelada. Se o cristianismo fosse apenas uma coletânea de ideias humanas, então a convicção dogmática não teria propósito. Contudo, se (como alegam os cristãos) Deus falou – tanto há muito tempo por meio dos profetas como nestes últimos dias por meio de seu Filho –, qual é o problema de crer no que ele disse e de insistir para que outras pessoas também creiam? Afinal, se há uma Palavra de Deus que pode ser lida e recebida hoje, seria tolice e um erro ignorá-la.

Naturalmente, o fato de Deus ter falado e de sua Palavra estar regis­trada em um livro não significa que os cristãos sabem tudo. Podemos, às vezes, dar a impressão de que pensamos isso – neste caso, precisamos ser perdoados por nossa arrogância. Como deixa claro o apóstolo João em sua primeira carta, “ainda não se manifestou o que havemos de ser”. No Antigo Testamento, Moisés foi um homem a quem Deus se revelou de forma extraordinária. Contudo, ele tinha plena certeza de que Deus só havia começado a “mostrar ao teu servo a tua grandeza…”. Nesse mesmo sentido, o apóstolo Paulo comparou nosso presente conhecimento parcial ao balbucio incoerente de uma criança.

Se Moisés, no Antigo Testamento, e João e Paulo, no Novo, admitem humildemente sua ignorância sobre tantos aspectos da verdade, quem somos nós para dizer que sabemos tudo? Precisamos ouvir novamente as duras palavras de Jesus: “Não lhes compete saber…”. Ele estava se referindo aos tempos e datas “que o Pai estabeleceu pela sua própria autoridade”. Contudo, o mesmo princípio se aplica a outros aspectos da verdade.

Os limites de nosso conhecimento não são determinados pelo que decidimos que queremos saber, mas pelo que Deus decidiu nos revelar. Talvez a afirmação mais equilibrada nesse sentido esteja no final do livro de Deuteronômio, no Antigo Testamento: “As coisas encobertas pertencem ao Senhor, o nosso Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre…”. Aqui a verdade como um todo está dividida em duas partes: “as coisas encobertas” e “as reveladas”. A Bíblia diz que as coisas encobertas pertencem a Deus. E, uma vez que ele não quis transmiti-las a nós, não devemos tentar arrancá-las dele à força, mas nos contentar em deixá-las com ele. As coisas reveladas, por outro lado, “pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre”. Ou seja, uma vez que Deus as deu para nós, ele deseja que nós mesmos as tenhamos e as passemos para a próxima geração. O propósito de Deus, portanto, é que desfrutemos do que é nosso (porque ele o revelou) e que não nos preocupemos com o que é só dele (porque ele não o revelou).

Devemos entender o que foi claramente revelado e admitir nossa ignorância com relação ao que não foi revelado; e é esta combinação cristã de dogmatismo e agnosticismo que, para nós, é tão difícil entender. Os problemas surgem quando permitimos que nosso dogmatismo invada o terreno das “coisas encobertas” ou que nosso agnosticismo ofusque “as reveladas”. Precisamos ter a capacidade de dizer a diferença entre essas duas áreas da verdade. É sinal de maturidade dizer “não sei” sobre um assunto, assim como dizer “eu sei” sobre outro – desde que nossa admissão de ignorância esteja relacionada a algo encoberto, e nossa afirmação de conhecimento, a algo revelado.

::Trecho de As Controvérsias de Jesus, Editora Ultimato.

 


    




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